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Data Scientist, Entrepreneur and Speaker

03
JAN
2013

Ventos de mudança no ensino superior

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Ventos de mudança no ensino superior

Por detrás de uma aparente normalidade, as universidades estão debaixo de forças que irão mudar radicalmente o seu tradicional papel na educação, formação e investigação. O fim do monopólio da educação está para breve e muitas destas instituições irão desparecer enquanto outras terão de sofrer transformações radicais para conseguir sobreviver.

As principais forças de mudança são:

1.  a extraordinária evolução da tecnologia que permite massificar os conteúdos a uma escala impensável apenas há uma década atrás.

2. a severa crise económica que trouxe cortes importantes do financiamento público às universidades e diminuiu a capacidade dos alunos pagarem os seus estudos.

3. Em terceiro lugar, e talvez mais grave, a marginalização dos jovens saídos das universidades e a percepção que melhores estudos nem sempre é sinónimo de melhores empregos.

Ensurdecidos pelo ruído dos burocratas e de interesses académicos mesquinhos, quase todos preferem dizer apenas aquilo que os seus superiores gostam de ouvir enquanto olham com desconfiança para os ventos de mudança que sopram lá fora. Há sinais de aviso importantes para as universidades nos recentes protestos de milhões de europeus e algumas verdades inconvenientes tem de ser olhadas de frente.

Não se espere que esta crise possa ser resolvida pelas elites da EU, que se revelam incapazes de lidar com os seus próprios problemas. Particularmente quando fizeram a escolha desastrosa de apoiar os centros financeiros, deixando a juventude sem esperança de um futuro decente. O desemprego dos jovens e a sua marginalização na Europa atingiu proporções inimagináveis há menos de dez anos atrás. Apenas 34% dos europeus com idade entre 15 e 29 anos estavam empregados em 2011, sendo este o valor mais baixo registrado pelo Eurostat.

As universidades estão com medo. A verdade é que para que elas se tornem de novo num laboratório de ideias vão ter de lutar muito. Marco Mancini, o presidente da Conferência de Reitores das Universidades italianas, disse neste ano que universidades italianas estão a enfrentar “o risco de colapso”. No mesmo mês, os estudantes que protestavam em frente do Reino Unido resumiam em três palavras o que está afectar os universitários: marginalização, perda de poder de decisão e desemprego.

Nos EUA, em 1961, os estudantes passavam cerca de vinte e quatro horas por semana a estudar. Actualmente passam apenas 14 horas. Junto com uma diminuição do tempo gasto no campus e em sala de aula, um número crescente de estudantes mostra intenção de adiar a matrícula universitária.

Estudos recentes mostraram que a aprendizagem tem sido profundamente alterada pela Internet e as novas tecnologias. A moda actual é simplesmente mover cursos para canais online usando taxonomias de aprendizagem intelectualmente simplistas e formas filosoficamente ingénuas de organização de conteúdos. Embora muitos duvidem que essas formas de ensino não sejam capaz de responder às necessidades actuais do aluno contemporâneo, a verdade é que elas constituem uma séria ameaça – veja-se o caso da Coursera, Udemy ou Khan Academy que em menos de 1 ano forneceram cursos a centenas de milhares de alunos.

Mas há um outro turbilhão que está a afectar o funcionamento das universidades: a marginalização da juventude. Uma geração inteira está a descobrir que o mantra, conhecido de longa data, que a educação é o caminho para encontrar um trabalho decente é uma mentira, ou, na melhor das hipóteses, superestimada. Em todo o mundo, um número crescente de licenciados está a perceber que existem poucos empregos disponíveis para a sua área e que a maioria dos trabalhos disponíveis não exigem diploma universitário. Nalgumas áreas existe um colossal desajuste entre oferta e procura.

Desde 2008 o desemprego dos jovens aumentou na Europa de 1,5 milhões, para 21% em 2011. Os dados recolhidos pelo Eurostat revelam a terrível realidade: de 7,5 milhões de jovens entre 15-24 anos e 6.500.000 entre 25-29 estão excluídos do mercado de trabalho na Europa. O desemprego jovem é o que se mantem mais inalterado desde o pico registrado em 2009. Em comparação com os adultos, os jovens continuam a ser quase três vezes mais probabilidades de estar desempregados. Ninguém se deve surpreender que a juventude vá para as ruas expressar a sua fúria e frustração.

No meio da tempestade, as universidades que continuem a impor a mediocridade e uma linha de pensamento compatível com o passado estão condenadas a perecer. Essas vítimas da tempestade ainda podem considerar que é mais seguro fechar os olhos e ficar confortável dentro da sua torre de marfim. No entanto, no dia após a tempestade passar, o cenário do ensino superior não será nada agradável para elas. E altura de abrirem as portas e se adaptarem!

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